Muito antes de a filosofia discutir sistematicamente a relação entre religião, cultura e conhecimento, um poeta viajante percebeu algo desconcertante: os povos imaginavam os deuses parecidos consigo mesmos. Os etíopes os representavam com os traços dos etíopes; os trácios, com os traços dos trácios; e, se cavalos e bois fossem capazes de pintar, provavelmente desenhariam divindades com corpos de cavalos e bois.
Essa observação, ao mesmo tempo simples, irônica e profunda, foi feita por Xenófanes de Cólofon, um dos pensadores mais originais do período pré-socrático. Ele não fundou uma religião nem se limitou a negar a existência dos deuses. Seu gesto foi mais filosófico: submeteu as crenças religiosas ao exame da razão, perguntou se as narrativas tradicionais eram dignas do divino e reconheceu que os seres humanos podem confundir suas próprias imagens com a realidade.
Xenófanes também estudou a terra, o mar, as nuvens, os astros e os fósseis. Refletiu sobre os limites do conhecimento e sustentou que a verdade não foi simplesmente entregue aos mortais: é preciso procurá-la, sabendo que nossas conclusões permanecem sujeitas ao erro. Por isso, sua obra representa uma ponte entre a investigação da natureza iniciada pelos pensadores de Mileto e a reflexão filosófica sobre religião, cultura e conhecimento.
Quem foi Xenófanes?
Xenófanes nasceu em Cólofon, cidade grega da Jônia, na costa da Ásia Menor, provavelmente por volta de 570 a.C. A data exata é incerta. Sua vida atravessou o final do século VI e o início do século V a.C., período de profundas mudanças políticas e intelectuais no mundo grego.
As informações biográficas conservadas são fragmentárias. Diógenes Laércio, autor de uma obra sobre os filósofos antigos escrita muitos séculos depois, afirma que Xenófanes deixou sua cidade natal e viveu em diferentes regiões do mundo grego. Algumas fontes dizem que ele teria sido banido; outras o relacionam à fundação de Eleia, no sul da Itália, e a estadias em cidades da Sicília. Esses detalhes devem ser recebidos com cautela, pois misturam tradições antigas, reconstruções posteriores e possíveis lendas.
O testemunho mais valioso vem do próprio Xenófanes. Em um de seus versos, ele afirma que já havia passado sessenta e sete anos percorrendo as terras gregas, depois de iniciar suas viagens aos vinte e cinco anos. Se o fragmento foi transmitido corretamente, Xenófanes viveu pelo menos até uma idade bastante avançada.
Ele não escrevia tratados filosóficos como Aristóteles faria mais tarde. Era poeta, cantor e recitador itinerante. Compunha elegias, versos épicos, poemas para banquetes e sátiras conhecidas como sílloi. Por meio dessas apresentações, levava suas ideias a diferentes cidades e públicos. Filosofia, poesia, crítica social e investigação da natureza ainda não estavam separadas em disciplinas distintas.
Quase toda a sua obra se perdeu. O que conhecemos sobre seu pensamento encontra-se em fragmentos citados por autores posteriores, como Clemente de Alexandria, Sexto Empírico, Ateneu e Simplício, além de relatos e resumos antigos. Isso significa que não possuímos um sistema completo escrito por Xenófanes. Temos versos isolados, retirados de contextos que muitas vezes desconhecemos, e testemunhos que podem interpretar suas ideias segundo preocupações de épocas posteriores.

Um pensador depois dos filósofos de Mileto
Xenófanes nasceu na mesma região cultural em que Tales, Anaximandro e Anaxímenes haviam investigado a origem e a organização do cosmos. Ele conheceu a nova atitude intelectual dos jônios: explicar os acontecimentos naturais por meio de processos pertencentes à própria natureza, em vez de recorrer imediatamente às ações imprevisíveis dos deuses.
Entretanto, seu interesse foi além da pergunta sobre o princípio material de todas as coisas. Xenófanes voltou o olhar crítico para as imagens religiosas, os costumes das cidades, os valores sociais e a pretensão humana de possuir a verdade. Com ele, a filosofia passou a examinar não apenas do que o mundo é feito, mas também como os seres humanos formam suas crenças sobre o mundo e sobre o divino.
Essa mudança não significou o abandono da investigação natural. Xenófanes estudou fenômenos meteorológicos e cosmológicos, falou sobre terra e água, observou indícios de antigas transformações do ambiente e ofereceu explicações físicas para acontecimentos considerados sagrados. Sua crítica religiosa e sua filosofia da natureza faziam parte de um mesmo movimento: afastar as projeções humanas e procurar compreender cada coisa segundo aquilo que ela é.
A crítica a Homero e Hesíodo
Na cultura grega, os poemas de Homero e Hesíodo eram fundamentais para a educação, a memória coletiva e a representação dos deuses. Suas narrativas apresentavam divindades que amavam, guerreavam, enganavam, sentiam ciúmes e interferiam nos conflitos humanos.
Xenófanes considerou moralmente inadequado atribuir aos deuses comportamentos que seriam condenados entre os próprios seres humanos:
“Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo aquilo que, entre os homens, é motivo de censura e vergonha: roubo, adultério e engano mútuo.”
— Fragmento B11, tradução livre
Essa crítica não precisa ser entendida como ateísmo. Xenófanes não diz simplesmente que os deuses não existem. Ele questiona se seres verdadeiramente divinos poderiam agir de maneira indigna. Se a divindade deve ser superior aos seres humanos, parece incoerente representá-la com os mesmos vícios e impulsos encontrados entre os mortais.
Seu pensamento introduz, portanto, um critério racional e ético na avaliação das tradições religiosas. Uma história antiga, popular ou atribuída a um poeta reverenciado não se torna verdadeira ou digna apenas por sua autoridade. Até mesmo a tradição deve ser examinada.
Essa posição era ousada. Homero e Hesíodo não eram apenas escritores conhecidos; suas obras organizavam grande parte do imaginário religioso grego. Criticá-los significava questionar uma das principais fontes de autoridade cultural da época.
Os seres humanos criam deuses à própria imagem
A crítica mais famosa de Xenófanes dirige-se ao antropomorfismo, isto é, à tendência de representar o divino com forma, emoções, voz, roupas e comportamentos humanos.
“Os mortais imaginam que os deuses nasceram, que vestem roupas como as suas e que possuem voz e corpo semelhantes aos seus.”
— Fragmento B14, tradução livre
Xenófanes percebeu ainda que essas imagens variavam conforme a cultura:
“Os etíopes dizem que seus deuses são negros e de nariz achatado; os trácios, que os seus têm olhos azuis e cabelos avermelhados.”
— Fragmento B16, tradução livre
A observação não ridiculariza apenas etíopes ou trácios. Ela inclui implicitamente os próprios gregos. Cada povo tende a considerar naturais e universais as características que lhe são familiares. Aquilo que parece uma representação evidente do divino pode ser, na realidade, um reflexo da comunidade que a produziu.
Xenófanes leva a ideia ao limite em seu fragmento mais conhecido:
“Se bois, cavalos e leões tivessem mãos e pudessem pintar e produzir obras como os homens, os cavalos desenhariam os deuses semelhantes a cavalos, e os bois, semelhantes a bois; cada espécie lhes daria o corpo que ela própria possui.”
— Fragmento B15, tradução livre
Aqui aparece uma das primeiras análises filosóficas da projeção religiosa. Os seres humanos podem acreditar que estão descrevendo uma realidade superior quando, na verdade, ampliam e sacralizam a própria imagem. Séculos mais tarde, pensadores como Ludwig Feuerbach e Sigmund Freud também interpretariam certas representações religiosas como projeções de desejos, características ou necessidades humanas. Isso não significa que Xenófanes tenha antecipado integralmente essas teorias modernas, mas sua pergunta abriu um caminho duradouro.
Sua crítica continua atual porque não se limita à aparência física. Podemos também imaginar o divino com nossos preconceitos, interesses políticos, hierarquias sociais e preferências morais. O deus de uma comunidade pode acabar sempre concordando com aquilo que a própria comunidade deseja.

“Um deus, o maior entre deuses e homens”
Depois de criticar as imagens tradicionais, Xenófanes apresentou uma concepção positiva do divino:
“Um deus, o maior entre deuses e homens, em nada semelhante aos mortais, nem no corpo nem no pensamento.”
— Fragmento B23, tradução livre
Outros versos completam essa descrição:
“Todo inteiro vê, todo inteiro pensa, todo inteiro ouve.”
— Fragmento B24, tradução livre
“Sem esforço, tudo move pela força do pensamento.”
— Fragmento B25, tradução livre
“Permanece sempre no mesmo lugar, sem se mover; não lhe convém deslocar-se ora para um lado, ora para outro.”
— Fragmento B26, tradução livre
Essa divindade não possui corpo humano, não depende de órgãos separados para perceber, não corre pelo mundo como os deuses homéricos e não precisa lutar fisicamente para exercer seu poder. Ela age pelo pensamento e permanece estável.
Xenófanes foi frequentemente chamado de primeiro monoteísta da filosofia ocidental, mas essa classificação exige cuidado. O fragmento fala em “um deus” e, ao mesmo tempo, menciona “deuses e homens” no plural. Isso permite interpretações diferentes. Ele poderia estar afirmando a existência de um único deus; poderia estar destacando um deus supremo acima dos demais; ou poderia usar a linguagem religiosa tradicional enquanto a transformava profundamente.
Também se discutiu se Xenófanes identificava esse deus com a totalidade do universo, o que faria dele uma espécie de precursor do panteísmo. Essa interpretação depende principalmente de testemunhos posteriores, especialmente de Aristóteles, e não pode ser demonstrada com segurança pelos fragmentos preservados.
O ponto mais firme é outro: Xenófanes rejeitou a ideia de que o divino fosse apenas um ser humano maior, mais forte e imortal. Sua reflexão procura retirar da divindade as limitações físicas, morais e psicológicas dos mortais. Nesse sentido, ele está entre os primeiros representantes de uma teologia filosófica, construída pela reflexão crítica e não apenas pela repetição dos mitos.
Um crítico da religião, mas não necessariamente da religiosidade
Seria anacrônico apresentar Xenófanes como um racionalista moderno empenhado em eliminar toda religião. Seus próprios poemas revelam respeito pelo divino e preocupação com a conduta adequada nos banquetes e na vida da cidade. Ele parece acreditar que os deuses merecem honra, mas que essa honra deve ser purificada de narrativas imorais e fantasias excessivamente humanas.
Há uma diferença importante entre criticar a religião e criticar determinadas representações religiosas. Xenófanes faz principalmente a segunda coisa. Ele não reduz sua atividade à zombaria: substitui concepções que considera indignas por uma imagem mais elevada, estável e racional do divino.
Por isso, sua obra pode interessar tanto aos críticos da religião quanto às pessoas religiosas que recusam imagens literais e antropomórficas de Deus. Em ambos os casos, permanece a mesma advertência: nenhuma comunidade deve confundir automaticamente suas imagens, palavras e costumes com a própria realidade divina.

A natureza explicada sem personagens divinos
Xenófanes também deu continuidade à investigação natural dos filósofos jônios. Em vez de interpretar cada fenômeno celeste como a manifestação de uma personalidade divina, procurou explicá-lo por meio de terra, água, vapor, nuvens e outros processos físicos.
Um exemplo notável é sua explicação do arco-íris:
“Aquilo que chamam Íris é, por natureza, uma nuvem, púrpura, avermelhada e amarelo-esverdeada aos olhos.”
— Fragmento B32, tradução livre
Na mitologia grega, Íris era uma deusa e mensageira divina. Xenófanes não nega a beleza do fenômeno, mas muda o tipo de pergunta. Em lugar de perguntar qual mensagem a deusa estaria trazendo, procura saber qual processo natural produz as cores observadas no céu.
Ele também considerava o mar a origem das nuvens, dos ventos, das chuvas e dos rios:
“O mar é a fonte da água e do vento; sem o grande mar não haveria vento, correntes dos rios nem chuva vinda do alto. O grande mar é o gerador das nuvens, dos ventos e dos rios.”
— Fragmento B30, tradução livre
Sua explicação não corresponde integralmente à meteorologia moderna, mas apresenta uma intuição importante sobre o ciclo da água: o calor eleva a umidade do mar, formam-se nuvens e delas procedem a chuva e os ventos. O valor histórico dessa teoria está na tentativa de conectar diferentes fenômenos por causas naturais e observáveis.
Outros testemunhos atribuem a Xenófanes explicações do Sol, da Lua, das estrelas, dos relâmpagos, dos cometas e do chamado fogo de Santelmo como fenômenos formados por nuvens ou exalações luminosas. Nem todos os detalhes podem ser atribuídos a ele com igual segurança, mas o conjunto mostra um pensador interessado em retirar os acontecimentos atmosféricos do domínio exclusivo do mito.
Terra, água e os sinais de antigos mares
Alguns fragmentos associam a geração dos seres vivos à terra e à água:
“Todos nós nascemos da terra e da água.”
— Fragmento B33, tradução livre
Relatos antigos afirmam que Xenófanes observou marcas de peixes e conchas em rochas encontradas longe do mar. A partir desses vestígios, teria concluído que certas regiões secas estiveram cobertas pelas águas em épocas anteriores. Também teria proposto ciclos de umidade e secura, nos quais terras habitadas poderiam ser novamente tomadas pelo mar.
É tentador chamá-lo de fundador da paleontologia ou da geologia, mas essas expressões modernas podem exagerar o alcance de sua investigação. Xenófanes não possuía métodos de datação, teoria das placas tectônicas ou uma ciência organizada dos fósseis. Ainda assim, seu raciocínio é extraordinário: ele interpretou objetos presentes como evidências de transformações ocorridas no passado remoto.
Em vez de explicar conchas nas montanhas por um acontecimento mítico isolado, relacionou-as a mudanças naturais da Terra. Essa atitude mostra como observação, viagem e comparação podiam ampliar a compreensão do mundo.
Os limites do conhecimento humano
Xenófanes não criticou apenas as imagens religiosas; criticou também a pretensão humana de possuir certeza absoluta. Um de seus fragmentos mais importantes declara:
“A verdade clara e certa nenhum homem viu, nem haverá quem a conheça acerca dos deuses e de tudo aquilo de que falo. Pois, mesmo que alguém por acaso dissesse o que é inteiramente verdadeiro, ainda assim não saberia que sabe; a opinião está destinada a todos.”
— Fragmento B34, tradução livre
Esse texto foi interpretado de muitas maneiras. Alguns autores antigos viram em Xenófanes um cético que negava a possibilidade do conhecimento. Contudo, seus outros fragmentos mostram confiança na observação, na investigação e na busca de explicações melhores. Por isso, muitos estudiosos preferem entendê-lo como um pensador falibilista: podemos formular ideias verdadeiras e melhorar nossas explicações, mas não possuímos uma garantia absoluta de que alcançamos a verdade definitiva.
Há uma diferença entre dizer “nada pode ser conhecido” e dizer “nossos conhecimentos podem estar errados”. A segunda posição não paralisa a investigação; ao contrário, torna a busca mais cuidadosa. Ela exige comparar evidências, corrigir hipóteses e reconhecer os limites da experiência humana.
Outro fragmento expressa confiança nesse processo:
“Os deuses não revelaram todas as coisas aos mortais desde o princípio; mas, procurando, os homens descobrem com o tempo aquilo que é melhor.”
— Fragmento B18, tradução livre
Conhecimento, portanto, não é uma revelação completa recebida de uma vez. É uma conquista gradual. Os seres humanos aprendem procurando, observando e corrigindo suas ideias. Esse princípio aproxima Xenófanes do espírito da investigação filosófica e científica: reconhecer a própria ignorância não é desistir da verdade, mas abandonar a arrogância que impede sua busca.

A sabedoria vale mais do que a força
Xenófanes também criticou os valores sociais de sua época. Em um longo fragmento, observa que as cidades ofereciam grandes honras, alimentação pública e prestígio aos atletas vitoriosos. Para ele, a força física de um campeão não tornava a cidade mais bem governada nem enchia seus celeiros.
Sua própria sabedoria, afirma o poeta, seria mais valiosa para a comunidade do que a velocidade de corredores, cavalos ou lutadores. A crítica não precisa ser lida como desprezo pelo corpo. Ela questiona a distribuição do reconhecimento público: por que uma vitória esportiva deveria valer mais do que uma inteligência capaz de orientar a cidade?
Nesse ponto, Xenófanes antecipa um debate que permanece atual. Sociedades frequentemente celebram fama, competição e espetáculo com muito mais intensidade do que conhecimento, prudência e contribuição coletiva. Sua pergunta continua incômoda: quais realizações realmente melhoram uma comunidade?
Ele também condenou o luxo excessivo e recomendou moderação nos banquetes. Seus versos revelam alguém atento não apenas à verdade abstrata, mas à educação dos cidadãos e à estabilidade da vida comum.
Xenófanes fundou a Escola Eleática?
Autores antigos relacionaram Xenófanes a Parmênides e à cidade de Eleia. Platão menciona uma tradição eleática que começaria com Xenófanes, enquanto Aristóteles afirma que ele contemplou a totalidade e declarou que o Um era deus. A partir dessas passagens, tornou-se comum apresentá-lo como fundador da Escola Eleática ou mestre de Parmênides.
Essa ligação, porém, é discutida. Existem semelhanças entre o deus imóvel de Xenófanes e o Ser uno e imóvel de Parmênides, mas as diferenças são profundas. Xenófanes fala poeticamente sobre uma divindade; Parmênides desenvolve uma argumentação ontológica sobre aquilo que é. Não possuímos prova segura de uma relação pessoal de mestre e discípulo.
É possível que Xenófanes tenha influenciado o ambiente intelectual de Eleia ou preparado algumas questões retomadas pelos eleatas. Mas tratá-lo apenas como uma introdução a Parmênides reduz a riqueza de seu pensamento. Ele foi poeta satírico, crítico cultural, investigador da natureza, reformador das concepções religiosas e pensador dos limites do conhecimento.
O que é histórico e o que permanece incerto?
Ao estudar Xenófanes, é importante separar diferentes níveis de segurança histórica.
Podemos afirmar com relativa confiança que ele nasceu em Cólofon, viveu entre o final do século VI e o início do V a.C., viajou por diversas regiões gregas, escreveu poesia e criticou as representações antropomórficas e imorais dos deuses. Também são bem atestados seu interesse pela natureza e sua reflexão sobre a incerteza do conhecimento humano.
Já detalhes como um banimento formal de Cólofon, uma participação direta na fundação de Eleia, a condição de mestre de Parmênides e certos episódios familiares dependem de testemunhos tardios e não podem ser confirmados.
Também permanecem abertas as interpretações de sua teologia. Chamá-lo de monoteísta, henoteísta, panteísta ou precursor da teologia negativa pode iluminar um aspecto de seus fragmentos, mas nenhuma dessas etiquetas resolve completamente o problema. As categorias foram desenvolvidas em contextos posteriores e não devem ser impostas sem cautela a um poeta grego arcaico.
Por fim, as traduções dos fragmentos variam. Palavras gregas antigas possuem nuances que nem sempre encontram equivalente exato em português, e o contexto original de muitos versos se perdeu. Por isso, toda reconstrução do pensamento de Xenófanes deve manter algum grau de humildade — justamente a atitude que sua filosofia recomenda.
O legado de Xenófanes
Xenófanes ocupa uma posição singular na história da filosofia. Ele não oferece um sistema fechado, mas inaugura perguntas que atravessariam séculos:
- As imagens dos deuses revelam o divino ou revelam principalmente quem as criou?
- Uma tradição pode ser julgada por critérios racionais e morais?
- É possível falar sobre Deus sem atribuir a ele forma e paixões humanas?
- Como explicar os fenômenos naturais sem recorrer a personagens míticos?
- O que podemos realmente conhecer e como distinguir verdade de opinião?
- A sociedade deveria valorizar mais a força e o espetáculo ou a sabedoria?
Sua crítica ao antropomorfismo influenciou a reflexão filosófica sobre o divino. Sua concepção de uma inteligência que move todas as coisas pelo pensamento pode ter preparado temas desenvolvidos, de modos diferentes, por Heráclito, Anaxágoras e Aristóteles. Sua investigação sobre a natureza prosseguiu o caminho dos jônios, enquanto sua cautela epistemológica antecipou debates sobre conhecimento, opinião e certeza.
Para a história das religiões, sua contribuição é decisiva. Xenófanes mostrou que estudar uma crença não significa apenas perguntar se ela é verdadeira ou falsa. Também é preciso investigar como ela foi formada, quais características culturais carrega e em que medida projeta sobre o universo os valores de seu próprio povo.

Conclusão
Xenófanes de Cólofon foi um viajante entre mundos. Herdou dos poetas a linguagem dos versos, dos pensadores jônios o desejo de investigar a natureza e da experiência das viagens a percepção de que os costumes humanos são variados. Dessa combinação nasceu uma filosofia crítica e profundamente original.
Ele observou que os seres humanos criavam deuses semelhantes a si mesmos, denunciou as ações imorais atribuídas às divindades por Homero e Hesíodo e propôs uma concepção do divino muito diferente da figura humana ampliada. Ao mesmo tempo, explicou fenômenos naturais por causas físicas, interpretou fósseis como sinais de antigas transformações da Terra e reconheceu que nenhum mortal possui acesso garantido à verdade absoluta.
Seu pensamento não conduz necessariamente à negação do sagrado. Conduz à humildade diante dele. Se o divino existe, talvez seja muito diferente das imagens produzidas por nossos medos, desejos e tradições. E, se buscamos compreender o mundo, não devemos esperar que todas as respostas tenham sido reveladas desde o princípio. Precisamos procurar, comparar e corrigir.
Essa talvez seja a mensagem mais duradoura de Xenófanes: a verdade merece ser buscada, mas ninguém deveria transformar sua própria imagem em medida absoluta do universo.
Referências e leituras recomendadas
- XENÓFANES. Fragmentos. Numeração tradicional de Diels-Kranz, capítulo 21.
- DIELS, Hermann; KRANZ, Walther. Die Fragmente der Vorsokratiker.
- KIRK, G. S.; RAVEN, J. E.; SCHOFIELD, M. Os filósofos pré-socráticos.
- LESHER, J. H. “Xenophanes”. Stanford Encyclopedia of Philosophy.
- “Xenophanes”. Internet Encyclopedia of Philosophy.
- LAÉRCIO, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, livro IX.
