Empédocles de Agrigento: quatro raízes, Amor e Discórdia

Depois de Parmênides, Zenão e Melisso, explicar uma árvore crescendo tornou-se um problema filosófico. Se o que é não pode surgir do nada nem desaparecer no nada, como acontecem nascimento e morte? Se a realidade verdadeira é imóvel e una, como entender o mundo cheio de diferenças que aparece diante de nós?

Empédocles de Agrigento oferece uma resposta ousada: não existe nascimento absoluto nem destruição absoluta. Aquilo que chamamos de nascer é uma combinação; aquilo que chamamos de morrer é uma separação. Os ingredientes fundamentais permanecem, embora as formas que eles constituem sejam temporárias.

Esses ingredientes são quatro “raízes”: terra, água, ar e fogo. Elas nunca surgem nem perecem. Duas potências, Amor e Discórdia, aproximam-nas e afastam-nas, produzindo corpos, seres vivos e fases sucessivas do cosmos. Assim, Empédocles preserva algo da exigência eleática de permanência sem concluir, como Melisso, que só pode existir uma realidade inteiramente imóvel.

Entretanto, sua filosofia não cabe numa fórmula material simples. Empédocles escreveu versos, invocou divindades, investigou os sentidos, imaginou ciclos de vida e defendeu a transmigração. Para compreendê-lo, precisamos acompanhar sua pergunta inteira: de que é feito o mundo, como ele muda e qual é nosso lugar dentro dele?

Quem foi Empédocles?

Empédocles nasceu em Acragas, a atual Agrigento, na Sicília, provavelmente no início do século V Antes da Era Comum. A cidade era uma pólis grega rica e poderosa. Sua vida atravessou conflitos entre tirania, oligarquia e democracia.

Há tradições de que ele apoiou setores populares, combateu projetos de tirania e recusou uma oferta de poder pessoal. São notícias antigas, mas muitas chegam por biografias tardias, e seus detalhes não podem ser aceitos sem reserva.

Empédocles também foi associado à medicina, à retórica e à atuação pública. Seus versos tratam de corpos, sangue e percepção; pessoas procuravam-no por curas e conselhos. Atribuir-lhe milagres realizados é outra questão: relatos de feitos extraordinários pertencem à construção de sua imagem pública e não são comprovações históricas.

Ele pode ter conhecido as ideias de Parmênides e dos pitagóricos. Chamar Parmênides de seu professor direto, contudo, vai além do que podemos assegurar. O importante é a relação entre os argumentos: Empédocles enfrenta explicitamente o problema eleático do nascimento e da mudança.

A história de que teria saltado na cratera do Etna para demonstrar sua divindade tornou-se famosa. É uma lenda, não um fato confirmado. Nem sequer possuímos uma narrativa confiável e única sobre sua morte.

Dois poemas ou um projeto?

Fragmentos de sua obra costumam ser distribuídos sob dois títulos: Sobre a natureza, voltado principalmente à cosmologia, e Purificações, relacionado à transmigração e à vida religiosa. A tradição antiga fala em dois poemas, mas estudiosos discutem se os títulos correspondem a obras realmente separadas.

O papiro de Estrasburgo, identificado no século XX e publicado em 1999, tornou essa separação ainda mais difícil. Ele conserva versos de Sobre a natureza próximos de temas que antes eram classificados como próprios das Purificações. Talvez física e ética estivessem ligadas desde o início.

Como só restaram fragmentos, não devemos apresentar uma metade “científica” e outra “mística” como se fossem identidades incompatíveis. Para Empédocles, as raízes, os deuses, os seres vivos e o destino dos seres errantes participam de uma mesma investigação.

O desafio herdado dos eleatas

Parmênides rejeitava a ideia de que o Ser pudesse nascer do não-ser ou tornar-se não-ser. Zenão pressionou concepções comuns de movimento e multiplicidade. Melisso concluiu que o Ser é uno, eterno, ilimitado e pleno; sem vazio, não há movimento.

Empédocles concorda com uma parte crucial desse raciocínio: nada real aparece a partir de um nada absoluto, e nada real desaparece por completo. Mas discorda de que apenas uma realidade fundamental tenha de existir.

Sua solução transfere a permanência do todo único para vários constituintes permanentes. As raízes são estáveis; seus encontros e afastamentos permitem a diversidade. Uma pessoa nasce e morre enquanto forma organizada, mas os constituintes fundamentais que formavam seu corpo não começam nem deixam de existir por isso.

É uma diferença decisiva entre duas perguntas:

  • Uma combinação particular começou ou terminou?
  • Aquilo de que ela é composta surgiu do nada ou virou nada?

Empédocles responde “sim” à primeira e “não” à segunda.

As quatro raízes

Terra, água, ar e fogo não são, para Empédocles, simples materiais encontrados no chão, no rio, na atmosfera e na fogueira. São tipos básicos de realidade que estão por trás de todas as coisas.

Ele as chama de “raízes” e, em certos versos, associa-as a nomes divinos. A correspondência exata entre cada divindade mencionada e cada raiz é discutida. Não precisamos resolvê-la para entender o ponto central: os quatro princípios possuem naturezas distintas e caráter permanente.

Aristóteles posteriormente ajudou a fixar a linguagem dos “quatro elementos”. Para estudar Empédocles, porém, “raízes” é uma palavra mais fiel. Ela sugere um poder gerador: de um número pequeno de princípios surgem inúmeras configurações.

Nenhuma raiz se transforma literalmente em outra. A água não vira fogo na realidade última; algo que parecia água pode alterar a proporção das raízes em determinada mistura. O que muda é a composição, não a identidade fundamental de cada raiz.

Também não devemos confundir essas raízes com os elementos químicos da ciência contemporânea. Oxigênio, carbono e ferro não são combinações de quatro substâncias empedoclianas. A teoria antiga importa por seu modo de explicar permanência e mudança, não por antecipar a tabela periódica.

O exemplo do pintor

Empédocles compara as raízes a pigmentos usados por um pintor. Poucas cores, misturadas em proporções diferentes, produzem uma variedade enorme de imagens: árvores, pessoas, animais e paisagens.

Pense num quadro de floresta. O verde da copa pode depender de proporções diferentes dos pigmentos que criam a luz nas folhas ou a sombra entre os troncos. As figuras mudam, mas o pintor não precisa inventar uma cor inteiramente nova do nada a cada pincelada.

O exemplo ajuda a visualizar sua tese sem reduzi-la a uma receita mecânica. Para Empédocles, proporção e organização importam. Diferentes misturas produzem diferentes corpos; a combinação que forma um organismo pode deixar de existir mesmo enquanto os princípios de sua composição permanecem.

Amor e Discórdia: o que são?

As raízes, por si só, não explicam por que se encontram ou se afastam. Empédocles introduz duas potências: Amor, frequentemente chamado Philótēs, e Discórdia, ou Neîkos.

O Amor aproxima raízes diferentes e promove mistura. A Discórdia enfraquece essas uniões e favorece a separação. São princípios cósmicos, não somente sentimentos de uma pessoa enamorada ou de dois vizinhos brigando.

Existe uma tentação de escrever: “Amor é bom; Discórdia é má”. Mas isso simplifica demais a cosmologia. Quando o Amor reúne tudo completamente, a diversidade de seres vivos pode desaparecer numa esfera perfeitamente unificada. Quando a Discórdia separa tudo completamente, também não existe o mundo organizado que conhecemos. As formas particulares aparecem em fases intermediárias do jogo entre as duas potências.

Na dimensão ética dos poemas, Empédocles valoriza o Amor e associa violência e derramamento de sangue à Discórdia. Ainda assim, não devemos confundir essa avaliação moral com a afirmação cosmológica de que apenas um dos princípios poderia existir.

Também não está decidido se as potências devem ser entendidas como entidades divinas conscientes, forças impessoais ou um modo antigo de nomear tendências fundamentais. Os fragmentos permitem interpretações diferentes.

O ciclo cósmico e a Esfera

O cosmos de Empédocles não possui um único início absoluto. As raízes e as potências são permanentes, mas suas configurações passam por ciclos.

Quando o Amor alcança predomínio completo, as raízes formam uma unidade perfeitamente misturada, frequentemente chamada Esfera. Essa imagem recorda, sob outro aspecto, a completude esférica associada ao Ser de Parmênides.

Mas a Esfera empedocliana não é o Ser uno dos eleatas. Ela contém quatro raízes distintas unidas numa mistura extrema. Sua unidade é uma condição produzida pelo Amor, e não a negação definitiva de qualquer pluralidade.

Com o crescimento da Discórdia, aparecem separações, regiões e combinações temporárias. Quando ela domina inteiramente, as raízes encontram-se separadas. O retorno do Amor permite novas misturas. Nenhuma das potências vence para sempre.

Os detalhes desse ciclo são objeto de debate. Alguns estudiosos reconstroem dois períodos de formação do mundo, um ligado ao crescimento da Discórdia e outro ao retorno do Amor; outros entendem que houve apenas uma cosmogonia principal por ciclo. Os fragmentos preservados não permitem transformar uma reconstrução disputada em certeza.

O essencial é a alternância: permanência dos princípios, transformação das configurações.

Nascer e morrer sem criação absoluta

Uma flor brota, abre-se e murcha. Nós vemos começo e fim, e não precisamos fingir que a experiência está errada em todos os sentidos. Empédocles pede que distingamos a flor como organismo daquilo que constitui a realidade fundamental.

O nascimento da flor é um arranjo de raízes; sua morte é a desorganização desse arranjo. Ela era real enquanto flor, mas não surgiu de um nada absoluto. Seu desaparecimento não é a extinção absoluta de tudo o que nela havia.

Isso não elimina a importância da vida individual. Dizer que os ingredientes permanecem não significa que a forma viva, sua história ou suas experiências permaneçam intactas. A teoria explica a continuidade dos princípios básicos, não promete que pessoas ou organismos mantenham sua identidade após toda separação.

Esse cuidado é necessário quando usamos a frase “nada morre”. Empédocles não ensina que ninguém morre na experiência comum. Ele contesta a ideia de que os constituintes fundamentais possam ser destruídos em sentido absoluto.

Como surgem os seres vivos?

Nos poemas de Empédocles aparecem cenas surpreendentes: membros isolados, olhos sem rosto, formas compostas de modo estranho e criaturas que não se parecem com os animais atuais.

Alguns encontros de partes produzem combinações incapazes de persistir; outros resultam em organismos capazes de sobreviver e reproduzir-se. Aristóteles interpretou passagens nesse sentido ao discutir estruturas ajustadas à sobrevivência.

Seria anacrônico chamar Empédocles de descobridor da seleção natural darwiniana. Ele não formulou uma teoria de herança genética, populações e evolução por descendência comum. Entretanto, imaginar combinações que sobrevivem ou fracassam pela maneira como são constituídas é uma contribuição importante para a história das explicações da vida.

Outros fragmentos descrevem formas humanas que emergem da terra antes de possuir partes plenamente desenvolvidas. O material é incompleto, e sua relação com os ciclos do Amor e da Discórdia não é simples. A filosofia dos seres vivos em Empédocles combina observação, imaginação poética e investigação causal.

O corpo e a proporção

Não basta haver quatro raízes num corpo. Suas proporções também importam. Diferentes misturas podem formar sangue, carne ou ossos.

Essa ideia dá profundidade à analogia do pintor: os mesmos pigmentos em quantidades e arranjos diferentes não produzem a mesma figura. Em Empédocles, composição e equilíbrio ajudam a distinguir as formas do mundo vivo.

Sua reflexão foi importante para o desenvolvimento posterior da medicina antiga, embora não devamos atribuir-lhe antecipações exatas de anatomia ou fisiologia modernas.

Como percebemos o mundo?

Empédocles não fala somente do que existe fora de nós. Ele pergunta como algo exterior se torna perceptível.

Os objetos emitiriam pequenas emanações, e os órgãos dos sentidos possuiriam poros ou passagens capazes de recebê-las. A adequação entre o que sai do objeto e o que pode entrar no órgão ajuda a explicar diferentes percepções.

Ele também sugere que reconhecemos as raízes porque há correspondências entre aquilo que está no mundo e aquilo que compõe nosso próprio corpo. Não percebemos a realidade de um ponto externo a ela: somos feitos dos mesmos princípios que investigamos.

Em seus versos, o sangue em torno do coração ocupa lugar importante na reflexão sobre o pensamento humano. Isso mostra como sua cosmologia alcança também a cognição. Não é uma descrição neurocientífica, mas uma tentativa antiga de relacionar a composição do corpo com a capacidade de conhecer.

Comparado a Melisso, que desconfiava profundamente da mudança apresentada pelos sentidos, Empédocles possui uma proposta diferente. A experiência do mundo mutável exige explicação e pode ser investigada, embora não revele imediatamente a estrutura última das raízes.

Transmigração e Purificações

Empédocles também fala de seres divinos ou daímones condenados a vagar por diversas formas de vida após uma transgressão, especialmente associada à violência e ao perjúrio.

Nos fragmentos ligados tradicionalmente às Purificações, ele se apresenta como alguém que participa desse exílio. O caminho de retorno envolve sucessivas existências e uma conduta de purificação.

Suas ideias aproximam-se de tradições pitagóricas sobre transmigração, mas não devemos concluir que todas as comunidades pitagóricas pensavam exatamente como ele. Empédocles constrói uma visão própria em que a trajetória dos seres atravessa o mesmo universo governado pelas raízes, pelo Amor e pela Discórdia.

Seu repúdio ao derramamento de sangue ajuda a compreender as críticas ao sacrifício animal e ao consumo de carne. Se a vida pode atravessar diferentes formas, matar um animal ganha significado perturbador: aquilo que parecia inteiramente “outro” pode fazer parte da mesma comunidade de existência.

Não é necessário adotar a transmigração como fato demonstrado para reconhecer a força ética da pergunta: como tratar seres vivos quando recusamos uma separação absoluta entre eles e nós?

Era um cientista, um poeta ou um religioso?

Empédocles não se encaixa facilmente nas profissões que hoje separamos. Investigava causas naturais, escrevia poesia, pensava a percepção, participava da vida pública e tratava de purificação.

Chamá-lo apenas de “cientista antigo” apaga a importância dos deuses e dos ritos em seus versos. Chamá-lo apenas de “místico” apaga sua solução engenhosa para o problema eleático da mudança. E classificá-lo apenas como poeta esconde o rigor de sua pergunta ontológica.

O melhor caminho é compreender como essas dimensões interagem. A poesia não é um disfarce para a filosofia, nem a cosmologia uma distração diante da ética. Ambas expressam tentativas de descrever a realidade e a posição humana dentro dela.

Essa união ajuda a explicar por que sua obra influenciou tradições filosóficas, médicas e religiosas tão diferentes.

Empédocles, Melisso e os atomistas

Melisso dizia que a realidade verdadeira é una e plena; não existe vazio capaz de permitir deslocamento. Empédocles preserva a permanência dos princípios, mas introduz várias raízes e suas combinações. É uma saída pluralista do impasse eleático.

Leucipo e Demócrito avançarão por outro caminho. Também defenderão constituintes permanentes e muitos, mas insistirão no vazio como condição do movimento dos átomos. Empédocles não precisa ser convertido em atomista antes dos atomistas: as raízes e as potências de seu sistema são diferentes dos átomos em movimento no vazio.

O parentesco filosófico é a pergunta comum: como conservar o que é estável sem negar o mundo das transformações?

Anaxágoras oferecerá ainda outra resposta, com uma multiplicidade de ingredientes e a ação do Nous, ou Intelecto. Assim, após o monismo eleático, os pré-socráticos constroem várias maneiras de reconciliar permanência e mudança.

Por que Empédocles importa hoje?

A atualidade de Empédocles não depende de provar que tudo seja literalmente feito de terra, água, ar e fogo. Sua contribuição permanece na distinção entre constituintes e configurações.

Uma configuração é real enquanto dura. Ela pode aparecer, transformar-se e desaparecer sem que isso signifique a criação absoluta ou o aniquilamento absoluto de todos os seus constituintes.

Sua filosofia também nos impede de tratar unidade e diversidade como escolhas simples. A Esfera reúne tudo, mas não produz a variedade cotidiana; a separação absoluta das raízes também não a produz. O mundo vivo depende de encontros e diferenças.

Por fim, sua obra mostra que refletir sobre a natureza não obriga a esquecer a ética. As perguntas sobre o corpo, o conhecimento e a violência participam do mesmo horizonte de investigação, ainda que nossas respostas atuais sejam outras.

Conclusão

Empédocles de Agrigento aceitou uma das exigências mais difíceis dos eleatas: nada verdadeiramente real nasce do nada ou se torna nada. Mas recusou a conclusão de que a realidade fundamental precisa ser um único Ser imóvel.

Quatro raízes permanentes e duas potências em alternância explicam as combinações que chamamos de nascimento e as separações que chamamos de morte. O Amor e a Discórdia produzem ciclos, corpos e formas de vida sem criar os princípios básicos a partir do não-ser.

Seus poemas ultrapassam a cosmologia: investigam percepção, pensamento, destino e relações entre seres vivos. As histórias de curas milagrosas e do salto no Etna podem ter ampliado sua fama, mas não são necessárias para reconhecer a originalidade de sua filosofia.

Depois de Melisso, Empédocles abre uma porta decisiva: a permanência pode pertencer a muitos princípios, e o mundo mutável pode ser levado a sério sem admitir um nascimento absoluto. É nessa porta que encontraremos, adiante, Anaxágoras e os atomistas.


Ideias essenciais de Empédocles

  • Quatro raízes: terra, água, ar e fogo são princípios permanentes.
  • Sem geração absoluta: nascimento e morte são mistura e separação.
  • Amor: promove aproximação e combinação.
  • Discórdia: promove afastamento e separação.
  • Ciclo cósmico: as potências alternam seu predomínio.
  • Esfera: fase de união extrema das raízes, não o Ser simples de Parmênides.
  • Percepção: relaciona emanações dos objetos e poros dos sentidos.
  • Transmigração: seres divinos errantes atravessam formas de vida.
  • Ética da não violência: critica sangue derramado e sacrifício animal.

Referências e leituras recomendadas

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