Depois de Parmênides, explicar a mudança tornou-se uma tarefa perigosa. Se nada pode nascer do não-ser e nada que existe pode desaparecer por completo, como o alimento se transforma em sangue, carne, ossos e cabelos? Como uma semente aparentemente simples produz raízes, folhas e frutos? E como o cosmos passou de uma condição indiferenciada para o mundo organizado que vemos?
Anaxágoras de Clazômenas respondeu com uma das teorias mais radicais da filosofia antiga: não existe geração absoluta. Aquilo que aparece numa coisa já estava presente nela de algum modo. Tudo contém porções de tudo, embora cada corpo receba seu nome do ingrediente que nele predomina.
Mas uma mistura universal não se organiza sozinha. Para explicar o começo do movimento cósmico, Anaxágoras introduziu o Nous — palavra grega que pode significar mente, intelecto ou inteligência. O Nous não cria os ingredientes do nada. Ele inicia e governa uma rotação que separa, reúne e ordena aquilo que sempre existiu.
Essa combinação de pluralismo material e inteligência cósmica tornou Anaxágoras uma figura decisiva entre Parmênides e Platão. Sua filosofia levou a investigação jônica da natureza para Atenas, ofereceu explicações naturais para os astros e deixou uma pergunta que continuaria atravessando a filosofia: basta explicar como o mundo funciona ou também precisamos dizer por que ele está ordenado dessa maneira?
Quem foi Anaxágoras?
Anaxágoras nasceu por volta de 500 Antes da Era Comum em Clazômenas, cidade jônica situada na costa da Ásia Menor, na região da atual Turquia. As datas exatas de sua vida e de sua chegada a Atenas são discutidas, mas a tradição mais difundida situa sua morte por volta de 428 Antes da Era Comum.
Relatos antigos afirmam que pertencia a uma família rica e que abandonou sua herança para dedicar-se ao conhecimento. A imagem combina bem com o filósofo contemplativo celebrado pela posteridade, mas, como acontece com tantos pré-socráticos, não podemos separar com segurança todos os fatos históricos das histórias construídas depois de sua morte.
Ele viveu em Atenas durante muitos anos e esteve ligado a Péricles, importante líder político da cidade. Sua presença representa uma etapa relevante na passagem da investigação da natureza, desenvolvida nas cidades gregas da Jônia e do sul da Itália, para o ambiente intelectual ateniense.
Às vezes Anaxágoras é chamado de primeiro filósofo estabelecido em Atenas. A fórmula é útil para indicar sua importância, mas não deve sugerir que antes dele a cidade desconhecesse qualquer reflexão filosófica. O que podemos afirmar é que sua obra circulou num momento de intensa transformação cultural e foi conhecida por autores atenienses.
Segundo as tradições antigas, Anaxágoras foi acusado de impiedade, deixou Atenas e passou seus últimos anos em Lâmpsaco. As fontes relacionam a acusação às suas explicações dos corpos celestes e, em algumas versões, à disputa política em torno de Péricles. A data do processo, seus motivos e até a forma precisa dos acontecimentos permanecem controversos. É mais prudente falar de uma tradição consistente de acusação e exílio do que reconstruir um julgamento sobre o qual não possuímos documentação contemporânea completa.

Um livro sobre a natureza
Anaxágoras escreveu em prosa. A Antiguidade conhecia uma obra sua que mais tarde seria chamada, de modo convencional, Sobre a natureza. No tempo de Platão, o livro ainda podia ser comprado em Atenas, mas ele não chegou inteiro até nós.
O que possuímos são fragmentos preservados por autores posteriores, sobretudo pelo comentador Simplicio, além de testemunhos de Platão, Aristóteles, Teofrasto e outros escritores. Esses materiais não formam um tratado contínuo. Cada reconstrução precisa distinguir as palavras provavelmente pertencentes a Anaxágoras das interpretações feitas por leitores posteriores.
Isso é especialmente importante em termos famosos como “sementes” e “homeomerias”. Anaxágoras menciona sementes, mas não explica de maneira completa sua função. Aristóteles descreve certos ingredientes anaxagóricos como coisas de partes semelhantes, como carne, osso e sangue. A palavra técnica “homeomerias”, porém, pertence principalmente à interpretação aristotélica. Usá-la como se fosse o nome indiscutível dado por Anaxágoras a partículas elementares pode distorcer sua teoria.
O desafio de Parmênides
Parmênides havia argumentado que o que é não pode vir do que não é. Também não pode deixar de ser e converter-se em nada. Essa exigência atingia diretamente as narrativas tradicionais de nascimento e destruição.
Empédocles respondeu propondo quatro raízes eternas — terra, água, ar e fogo — cujas misturas e separações formam o mundo. Anaxágoras aceita o mesmo princípio geral de permanência, mas rejeita a redução de todas as coisas a apenas quatro constituintes.
Para ele, aquilo que chamamos de nascer é a reunião de coisas que já existiam; aquilo que chamamos de morrer é sua separação. Um corpo vivo começa e termina enquanto organização visível, mas seus ingredientes não surgem do nada nem são aniquilados.
Essa solução preserva uma intuição eleática e, ao mesmo tempo, leva a sério a variedade do mundo. Em vez de negar toda mudança, Anaxágoras redefine o que muda: não a existência absoluta dos ingredientes, mas sua concentração, sua distribuição e sua predominância em cada região da mistura.
“Todas as coisas estavam juntas”
O relato cosmológico começa com todas as coisas juntas. Não se trata de um vazio esperando para ser preenchido, nem de um universo criado a partir do nada. Existe uma mistura ilimitada e tão completa que nenhuma cor ou forma particular pode ser distinguida.
Nessa condição original estão misturados o quente e o frio, o seco e o úmido, o claro e o escuro, além de terra e incontáveis sementes. Os ingredientes não ocupam compartimentos isolados, como grãos separados dentro de um saco. Eles se interpenetram numa mistura sem espaços vazios.
Por isso, não devemos imaginar o começo como uma coleção de pequenos objetos já prontos — minúsculos homens, árvores, cavalos e montanhas — aguardando apenas a oportunidade de crescer. A teoria trata de ingredientes e qualidades presentes na mistura, não de um depósito de miniaturas do mundo futuro.
Também não há um primeiro momento em que esses ingredientes tenham sido fabricados. Eles preexistem à organização do cosmos. A cosmogonia de Anaxágoras explica o início de uma ordem e de um movimento, não o começo absoluto de tudo o que existe.

Em tudo há uma porção de tudo
A frase mais conhecida de Anaxágoras afirma que em tudo existe uma porção de tudo. O princípio é estranho à primeira vista. Se há ouro numa barra de ferro e carne numa folha, por que não os vemos?
A resposta está na diferença de proporções. Cada coisa contém uma multiplicidade de ingredientes, mas alguns se encontram em maior concentração. Chamamos algo de ouro porque o ouro predomina em sua composição visível; chamamos algo de carne porque nela predomina aquilo que reconhecemos como carne.
Isso não significa que as demais porções estejam ausentes. Elas podem ser pequenas demais ou estar dispersas demais para se manifestarem aos sentidos. Nenhuma região material é perfeitamente pura.
Um exemplo ajuda. Imagine uma bebida na qual muitos sabores estejam misturados. Se a canela predomina, diremos que a bebida tem sabor de canela, embora nela também existam água, frutas e outras especiarias. A analogia é imperfeita, pois em Anaxágoras a mistura é muito mais radical: todas as coisas materiais contêm porções de todos os ingredientes básicos.
O nome de um corpo indica, portanto, o que nele se mostra dominante, e não uma pureza absoluta. A identidade visível depende da predominância.
A lição da alimentação
Uma das motivações atribuídas à teoria aparece na alimentação. Comemos pão, frutos e outros alimentos; depois, nosso corpo produz sangue, pele, músculos, ossos, unhas e cabelos. Como tantas estruturas diferentes poderiam surgir do que parecia ser um alimento relativamente uniforme?
Se nada nasce do que não existe, Anaxágoras conclui que os ingredientes de carne, osso e cabelo já precisam estar presentes no alimento. A digestão não os cria a partir do nada. Ela participa de um processo de separação, concentração e incorporação daquilo que estava misturado.
Do ponto de vista da biologia atual, a explicação está errada. Nutrientes são transformados por processos metabólicos, e tecidos não permanecem prontos dentro dos alimentos como porções de carne ou cabelo. Mas a pergunta anaxagórica é filosoficamente poderosa: como explicar transformação sem fazer uma propriedade aparecer de um nada absoluto?
Sua resposta combina observação e compromisso metafísico. A experiência da nutrição é interpretada à luz da exigência parmenídica de que o que é não pode vir do não-ser.
Divisão sem um último pedaço
Anaxágoras não propõe átomos. Para ele, não existe uma menor porção indivisível que marque o fim de toda divisão. Sempre é possível considerar algo menor, assim como sempre existe algo maior em relação a outra medida.
Essa divisibilidade explica por que cada porção de matéria pode conter todos os ingredientes. Se houvesse um fragmento absolutamente mínimo e puro de osso, por exemplo, nesse ponto não haveria porções das demais coisas. Isso contrariaria a mistura universal.
Por essa razão, é enganoso representar as “sementes” de Anaxágoras como partículas minúsculas equivalentes aos átomos de Demócrito. Os atomistas afirmarão corpos indivisíveis movendo-se no vazio. Anaxágoras concebe um universo pleno, uma matéria divisível e ingredientes que permanecem misturados em cada escala.
A interpretação exata dessa infinita divisibilidade é discutida. Alguns estudiosos entendem que a mistura está efetivamente dividida ao infinito; outros preferem dizer que ela pode ser dividida indefinidamente. Em ambos os casos, a ideia central permanece: não chegamos a um último pedaço puro e isolado.
O que são as “sementes”?
Os fragmentos mencionam sementes — spérmata — ilimitadas em número e variadas em forma, cor e sabor. Durante muito tempo, livros introdutórios apresentaram essas sementes como os elementos fundamentais da teoria.
O problema é que Anaxágoras não fornece uma definição suficiente. Elas podem ser entendidas como sementes biológicas presentes na mistura, como fontes de crescimento ou, em sentido amplo, como os ingredientes a partir dos quais as coisas se desenvolvem. Nenhuma dessas leituras está livre de dificuldades.
O mais seguro é não tratá-las como bolinhas elementares indivisíveis. A palavra sugere potenciais de desenvolvimento e ingredientes do cosmos, mas não autoriza uma imagem atomista.
Também convém ter cautela com “homeomerias”. Aristóteles usa a ideia de partes semelhantes ao todo: uma parte de carne continua sendo carne, uma parte de ouro continua sendo ouro. Isso influenciou profundamente a recepção de Anaxágoras, mas não sabemos se o próprio filósofo organizou sua doutrina com essa categoria técnica.

O Nous: a inteligência que inicia o movimento
Se tudo estava misturado e em repouso, o que iniciou a diferenciação do cosmos? A resposta de Anaxágoras é o Nous.
O termo pode ser traduzido como Mente, Intelecto ou Inteligência. Anaxágoras o descreve como autônomo, puro, não misturado e dotado de conhecimento. Se estivesse misturado aos demais ingredientes da mesma maneira que eles se misturam entre si, seria afetado e limitado por aquilo que deveria governar.
O Nous conhece as coisas misturadas, separadas e organizadas. Ele domina a rotação inicial e estabelece um processo que se expande progressivamente. Sua ação introduz ordem e diferenciação na mistura originária.
Não é correto identificá-lo sem ressalvas com o Deus criador das tradições monoteístas. Nos fragmentos preservados, Anaxágoras não chama o Nous de deus, e ele não cria o mundo a partir do nada. Os ingredientes já existem. Também não encontramos uma doutrina desenvolvida de providência, revelação ou mandamentos divinos.
Ao mesmo tempo, reduzi-lo a uma simples força mecânica talvez seja insuficiente, pois Anaxágoras lhe atribui conhecimento e domínio. Os estudiosos divergem: alguns interpretam o Nous como inteligência orientada por fins; outros o entendem principalmente como princípio natural de movimento e ordem. O texto preservado permite a controvérsia.
O redemoinho cósmico
O Nous inicia uma rotação numa pequena região da mistura. O movimento forma um redemoinho que se amplia e desencadeia separações: o denso distingue-se do rarefeito, o quente do frio, o luminoso do escuro e o seco do úmido.
“Separação”, aqui, nunca significa pureza completa. Como em tudo permanece uma porção de tudo, o processo muda concentrações e organiza regiões, mas não isola absolutamente um ingrediente de todos os demais.
A rotação possui papel causal decisivo. Elementos densos e úmidos concentram-se em determinadas áreas; outros são lançados para fora. A partir desses movimentos formam-se a Terra, o ar, o éter e os corpos celestes.
Às vezes o redemoinho anaxagórico é comparado ao Big Bang. A comparação pode servir como imagem inicial, mas produz confusão se for tomada literalmente. A cosmologia contemporânea descreve a expansão do espaço-tempo com modelos matemáticos e evidências observacionais. Anaxágoras fala de uma rotação dentro de uma mistura material preexistente e ilimitada. São projetos históricos e conceituais muito diferentes.
O Sol, a Lua e os eclipses
Anaxágoras tornou-se famoso por oferecer explicações naturais dos corpos celestes. Em vez de tratar o Sol apenas como divindade, descreveu-o como uma massa incandescente. A Lua seria um corpo semelhante à Terra, com relevo, e receberia sua luz do Sol.
Essa concepção permitia explicar eclipses por posições e bloqueios entre corpos: a Lua pode impedir que a luz solar chegue a determinada região da Terra, e a sombra da Terra pode escurecer a Lua.
Nem todos os detalhes de sua astronomia estavam corretos. Algumas medidas, formas e mecanismos atribuídos a ele pertencem a uma cosmologia antiga. Sua importância não está em ter antecipado toda a ciência moderna, mas em submeter fenômenos celestes a causas físicas discutíveis e investigáveis.
Essa naturalização podia provocar tensão religiosa e política. Dizer que o Sol é uma massa quente não precisava negar toda religião, mas retirava do astro o caráter de agente divino suficiente para explicar seus movimentos. A tradição ligou ideias desse tipo à acusação de impiedade contra o filósofo.
Também se atribuiu a Anaxágoras a previsão da queda de uma pedra celeste em Egospótamos. É mais provável que a história tenha sido construída retrospectivamente a partir de sua teoria de que os astros eram corpos pétreos. Ela ilustra sua fama, não um registro seguro de previsão científica.
Percepção: sentimos por contraste
Anaxágoras também investigou como percebemos. Segundo testemunhos antigos, a percepção ocorre por contraste: sentimos o frio pelo quente que há em nós, o doce pelo amargo e assim por diante.
Percepções intensas podem provocar dor porque o contraste perturba o órgão sensorial. A visão, por exemplo, dependeria de uma diferença entre o olho e aquilo que é visto.
Os sentidos possuem limites. Como os ingredientes estão profundamente misturados e muitas porções são imperceptíveis, a aparência imediata não revela toda a composição de um objeto. Ainda assim, Anaxágoras não abandona a investigação do mundo sensível. A razão trabalha sobre os fenômenos para inferir o que não aparece diretamente.
Essa postura ocupa uma posição interessante depois dos eleatas. A experiência não é suficiente para mostrar a estrutura profunda da realidade, mas também não é descartada como simples ilusão sem valor. O problema é explicar por que as coisas aparecem como aparecem.

Sócrates, Platão e a decepção com o Nous
No diálogo Fédon, de Platão, Sócrates conta que ficou entusiasmado ao saber que Anaxágoras colocava a Inteligência na origem da ordem cósmica. Ele esperava encontrar uma explicação de por que cada coisa estava disposta da melhor maneira.
Ao ler a obra, porém, decepcionou-se. Em sua avaliação, Anaxágoras anunciava o Nous, mas depois explicava os acontecimentos principalmente por ar, éter, água e movimentos materiais. A Inteligência parecia iniciar o processo sem esclarecer por que aquela organização seria boa ou a melhor possível.
A crítica marca uma diferença entre dois tipos de causa. Uma explicação pode mostrar os mecanismos que produzem um acontecimento; outra pode apresentar o fim ou o bem em razão do qual algo acontece. Sócrates desejava a segunda e considerou que Anaxágoras ofereceu sobretudo a primeira.
Aristóteles retomaria crítica semelhante, afirmando que Anaxágoras recorria à Inteligência quando não encontrava outra explicação, mas pouco a utilizava no restante do sistema.
Leitores contemporâneos discutem se a crítica é justa. Os fragmentos atribuem ao Nous conhecimento, controle e poder de ordenação, elementos que podem sustentar uma leitura orientada por fins. Ainda assim, não apresentam de forma inequívoca uma teoria completa segundo a qual tudo foi organizado para o melhor.
Anaxágoras, Empédocles e os atomistas
Anaxágoras pertence ao grupo frequentemente chamado de pluralistas. Como Empédocles e, depois, os atomistas, ele procura preservar ingredientes permanentes sem negar que o mundo visível se transforme.
| Questão | Empédocles | Anaxágoras | Leucipo e Demócrito |
|---|---|---|---|
| Princípios materiais | Quatro raízes | Ingredientes incontáveis e universalmente misturados | Átomos indivisíveis |
| Causa do movimento | Amor e Discórdia | Nous e rotação cósmica | Movimento dos átomos |
| Vazio | Não ocupa papel central | Universo pleno, sem vazio separador | Necessário ao movimento |
| Mudança | Mistura e separação das raízes | Alteração de concentração e predominância | Rearranjo dos átomos |
| Menor parte | As raízes permanecem na mistura | Não há último fragmento puro | Há corpos indivisíveis |
As três teorias respondem ao mesmo desafio de maneiras diferentes. Empédocles busca economia com quatro raízes. Anaxágoras multiplica os ingredientes e faz da mistura universal a condição de toda transformação. Os atomistas reduzirão diferenças qualitativas a configurações de corpos indivisíveis.
Nenhuma dessas propostas deve ser confundida com a química ou a física atuais. Seu valor histórico está na construção de modelos racionais para conciliar permanência, diversidade e movimento.
O processo por impiedade e o exílio
A tradição relata que Anaxágoras foi acusado de impiedade por ensinar que o Sol era uma pedra incandescente e a Lua um corpo terrestre. Péricles teria ajudado em sua defesa, e o filósofo teria deixado Atenas rumo a Lâmpsaco.
É possível que a acusação também tenha servido para atingir politicamente Péricles por meio de alguém próximo a ele. Entretanto, nossas fontes são tardias e oferecem cronologias diferentes. Não sabemos com segurança se houve um único processo, quando ocorreu nem quais acusações foram formalmente apresentadas.
Por isso, a narrativa heroica do “cientista perseguido apenas por descobrir a verdade” é simples demais. Religião, filosofia e política não formavam campos completamente separados em Atenas. Uma explicação natural do Sol podia ser intelectualmente ousada, religiosamente sensível e politicamente útil aos adversários de um governante ao mesmo tempo.
Em Lâmpsaco, Anaxágoras teria recebido honras e formado discípulos. Tradições posteriores dizem que a cidade celebrou sua memória com uma festa dedicada às crianças. Mesmo que alguns detalhes sejam difíceis de verificar, eles mostram que sua imagem antiga não se resumia à de um condenado: ele também foi lembrado como mestre respeitado.
Por que Anaxágoras importa hoje?
Anaxágoras não importa porque sua física estivesse secretamente pronta para tornar-se ciência contemporânea. Sua noção de que há carne e osso em toda porção de alimento não corresponde ao conhecimento biológico atual, e o redemoinho cósmico não é uma versão antiga da cosmologia moderna.
Sua força está nas perguntas e nas distinções que construiu.
Primeiro, ele percebeu que explicar a mudança exige dizer o que permanece. Um objeto pode transformar-se porque seus componentes são redistribuídos, concentrados e organizados de outra maneira.
Segundo, distinguiu aparência predominante de composição total. Aquilo que vemos num corpo não precisa esgotar tudo o que existe nele. Essa ideia não deve ser importada diretamente para a ciência atual, mas ensina uma atitude filosófica valiosa: o aspecto dominante não é necessariamente a realidade inteira.
Terceiro, separou o início da ordem da criação absoluta. O Nous organiza uma realidade preexistente. Com isso, introduziu na história da filosofia uma poderosa tensão entre inteligência e matéria, planejamento e mecanismo, finalidade e causalidade física.
Por fim, sua recepção mostra que uma grande ideia pode ser fértil mesmo quando deixa leitores insatisfeitos. Platão e Aristóteles criticaram o uso limitado do Nous, mas foi justamente essa inteligência cósmica que abriu espaço para novas teorias da ordem e da causalidade.

Conclusão
Anaxágoras de Clazômenas aceitou o desafio de Parmênides sem abandonar o mundo da experiência. Nada nasce do nada e nada se perde no nada; o que chamamos de geração e destruição são processos de mistura, separação e predominância.
Sua resposta é mais radical do que a de Empédocles. Em vez de quatro raízes, há uma multiplicidade de ingredientes. Em cada coisa existe uma porção de todas as outras, e nenhum fragmento material é absolutamente puro. Uma coisa parece ser o que é porque certos ingredientes predominam nela.
O Nous, puro e não misturado, inicia a rotação que ordena o cosmos. Ele conhece e governa o processo, mas os fragmentos não permitem tratá-lo sem ressalvas como um Deus pessoal ou como uma inteligência que planeja cada detalhe para o melhor.
Ao explicar o Sol, a Lua e os eclipses por causas naturais, Anaxágoras ampliou o alcance da investigação racional. Ao frustrar as expectativas de Sócrates, mostrou também uma fronteira duradoura: conhecer os mecanismos do mundo talvez não responda sozinho à pergunta sobre seu sentido.
Depois de Empédocles, Anaxágoras oferece uma segunda grande saída pluralista do impasse eleático. A próxima virá com Leucipo e Demócrito, que substituirão a mistura sem partes mínimas por átomos indivisíveis movendo-se no vazio.

Ideias essenciais de Anaxágoras
- Nada nasce ou perece absolutamente: há mistura e separação de ingredientes preexistentes.
- Tudo estava junto: a condição inicial era uma mistura ilimitada e indiferenciada.
- Tudo está em tudo: cada porção material contém porções de todos os ingredientes.
- Predominância: uma coisa recebe seu nome daquilo que nela predomina.
- Divisibilidade: não existe um menor pedaço material absolutamente puro.
- Sementes: aparecem nos fragmentos, mas seu significado exato é discutido.
- Nous: Inteligência pura e não misturada que conhece e governa a rotação.
- Redemoinho cósmico: o movimento iniciado pelo Nous organiza a mistura.
- Astronomia natural: Sol, Lua e eclipses recebem explicações físicas.
- Limite da finalidade: Platão e Aristóteles julgaram que Anaxágoras usou pouco o princípio inteligente que anunciou.
Referências e leituras recomendadas
- Anaxagoras — Stanford Encyclopedia of Philosophy.
- Anaxagoras — Internet Encyclopedia of Philosophy.
- ARISTÓTELES. Metafísica, livro I; Física, livros I e III; Da geração e corrupção, livro I.
- DIÓGENES LAÉRCIO. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, livro II.
- LAKS, André; MOST, Glenn W. Early Greek Philosophy, volume VI.
- PLATÃO. Fédon, 97b–99d; Apologia, 26d–e.
- SIMPLÍCIO. Comentário à Física de Aristóteles.
